
Quem passa pela Avenida Brasil, na altura de Guadalupe, já deve ter percebido que o Shopping Jardim Guadalupe não vive mais os mesmos dias de movimento de quando foi inaugurado, lá em 2011.
E agora veio uma notícia que mostra bem como o mercado está se adaptando à realidade.
Parte do terreno do shopping será vendida para a construção de 720 apartamentos populares. O espaço fica nos fundos do estacionamento e será usado para levantar quatro blocos residenciais.
A obra ficará por conta da incorporadora Jerônimo da Veiga, que pretende investir justamente em moradia voltada ao público de renda mais popular.
Agora, muita gente pode se perguntar: por que um shopping decide vender parte do próprio terreno?
A resposta está nos números.
Hoje o Shopping Jardim Guadalupe enfrenta um problema que virou comum em vários centros comerciais: lojas vazias. Dos 191 espaços comerciais planejados originalmente, apenas 59 estão ocupados. Ou seja, cerca de 30% do shopping está funcionando de fato.
Outro ponto que pesa muito é a saída das chamadas lojas âncora, aquelas grandes marcas que normalmente puxam o movimento de público. Com o passar dos anos, praticamente todas deixaram o empreendimento.
Mas seria injusto dizer que o problema é apenas do shopping.
A região também enfrenta desafios antigos, como baixo poder de compra da população, violência e menos interesse de grandes redes em abrir lojas por ali. Guadalupe ainda fica perto de áreas como Complexo do Chapadão, Barros Filho e Costa Barros, locais que infelizmente aparecem com frequência nas notícias por causa de confrontos armados.
Nos últimos anos até houve tentativa de mudança. Em 2024, a Gafisa chegou a anunciar um aporte no shopping junto com o fundo MACAM Shopping. A expectativa era dar uma nova cara ao empreendimento. Só que o acordo acabou desfeito no ano passado.
Outro episódio que chamou atenção foi o fechamento temporário do cinema. O Cine Araújo chegou a ameaçar encerrar as atividades, mas acabou reabrindo depois de negociações internas.
Agora, com os novos prédios residenciais previstos para o terreno, a aposta é outra: trazer moradores para perto do shopping.
Na prática, a lógica é simples. Mais gente morando ao redor significa mais movimento, mais consumo e mais chances de novas lojas se interessarem pelo espaço.
É o que os especialistas chamam de verticalização da região — quando surgem mais prédios e mais moradores concentrados no mesmo bairro.
Claro, o projeto ainda precisa passar por licenciamento e outras etapas antes da construção começar. Mas a decisão mostra uma coisa importante: os shoppings também estão mudando para sobreviver.
E, olhando de fora, dá para dizer que o Shopping Jardim Guadalupe pode acabar virando algo que muitos centros comerciais no Rio estão tentando ser hoje: um lugar onde comércio e moradia convivem lado a lado.
No fim das contas, pode ser justamente a chegada de novos vizinhos que ajude o shopping a voltar a ter movimento. E isso, para a região, pode significar mais vida econômica circulando por ali.