
O sistema de transporte público da cidade do Rio de Janeiro entra em uma nova fase de testes nesta terça-feira (26 de maio). Passageiros de diversas linhas de ônibus convencionais poderão pagar a tarifa diretamente nos validadores utilizando o PIX. O anúncio foi feito nesta segunda-feira (25) pelo prefeito Eduardo Cavaliere e pelo secretário de Transportes, Jorge Arraes, como uma tentativa de ampliar as alternativas de embarque após a repercussão negativa sobre o fim do dinheiro em espécie dentro dos coletivos.
Nesta primeira etapa, a tecnologia será testada em caráter piloto em veículos selecionados. A previsão da Secretaria Municipal de Transportes (SMTR) é liberar o pagamento por PIX para 100% da frota municipal ao longo do mês de junho.
O modelo de pagamento por PIX foi desenhado para tentar não reter o fluxo de passageiros na roleta. O validador do sistema Jaé exibirá um QR Code dinâmico, que ficará visível por 30 segundos — tempo estimado para que o usuário abra o aplicativo do banco no celular e efetue a leitura e o pagamento.
Seguindo o cronograma de digitalização, o passo seguinte será a introdução dos cartões bancários de débito e crédito por aproximação:
15 de junho: Início dos testes com cartões de crédito e débito direto nos validadores de algumas linhas.
Ao longo de junho: Ampliação gradual da tecnologia para toda a frota do município.
Durante a transmissão oficial, a prefeitura apresentou dados que apontam para uma rápida migração dos usuários para o ecossistema digital do Jaé. Segundo o município, as viagens pagas sem dinheiro em espécie já representam 95% do total do sistema, com projeção de chegar perto de 100% até o final desta semana.
Os técnicos registraram que o uso de cédulas e moedas no embarque, que era de 9% antes do anúncio do fim do dinheiro (feito em 12 de maio), recuou para 5%. Paralelamente, o ritmo de adesão ao novo cartão disparou: no dia do anúncio, mais de 12 mil novos cadastros foram realizados no Jaé, mantendo uma média atual de 7 mil novos usuários por dia.
A mudança também gerou impacto direto nos hábitos dos usuários do antigo sistema. Houve uma queda de 20% na recarga do cartão verde (Riocard).
“As pessoas estão reduzindo a carga no cartão verde porque sabem que ele não valerá mais para a integração depois do dia 30. O usuário que precisa fazer a integração já está migrando para o cartão preto (Jaé)”, explicou o secretário Jorge Arraes, reforçando que o cartão antigo continuará funcionando apenas para viagens unitárias, perdendo o benefício do bilhete único.
Para atender a demanda, os 1.090 pontos de recarga físicos (entre máquinas de autoatendimento, bilheterias e bancas de jornal) receberam reforço, e as lojas físicas do Jaé estenderam o horário de atendimento, funcionando agora das 8h às 18h.
Apesar dos indicadores de avanço digital apresentados pela administração municipal, a transição está longe de ser um consenso e acumula críticas severas quanto à acessibilidade de idosos, turistas e pessoas sem acesso a smartphones ou contas bancárias.
No início da implantação prática na linha 634 (Bananal x Saens Peña) — que serviu como projeto piloto ligando a Ilha do Governador à Tijuca —, usuários relataram dificuldades. Uma passageira que portava apenas dinheiro em espécie foi impedida de embarcar devido à ausência de cobrador ou de cobrador eletrônico que aceitasse cédulas dentro do coletivo.
O descontentamento com o formato da transição motivou uma reação jurídica firme dos órgãos de defesa do consumidor. Neste domingo (24), a Secretaria de Estado de Defesa do Consumidor (Sedcon) e o Procon-RJ ajuizaram uma ação civil pública com pedido de tutela de urgência contra a concessionária CBD Bilhete Digital S.A. e a Prefeitura do Rio.
Na ação, as entidades argumentam que a proibição do dinheiro em espécie ocorreu de forma abrupta, ferindo direitos básicos dos cidadãos. Segundo os órgãos, a mudança falhou por não realizar uma ampla campanha de conscientização prévia e por não disponibilizar uma estrutura física pulverizada e adequada para atender toda a população que depende exclusivamente do transporte público para se locomover.