
Quem circula pelo interior do Estado do Rio ou por outros cantos do Brasil já se acostumou com a cena: uma réplica gigante da Estátua da Liberdade imponente na beira da estrada, anunciando uma megaloja da Havan. No território fluminense, cidades como Volta Redonda, Resende e São Pedro da Aldeia já contam com essas estruturas.
No entanto, uma dúvida intriga milhões de consumidores: por que a cidade do Rio de Janeiro, o segundo maior mercado consumidor do país, não tem nenhuma loja da Havan?
Ao contrário dos boatos que circulam nas redes sociais sobre supostos "boicotes políticos" ou "acordos secretos" com grandes redes locais, a resposta é puramente matemática e estratégica. A Havan não está na capital fluminense porque o modelo de negócios da empresa foi desenhado para funcionar exatamente ao contrário.
Entenda os três pilares que explicam essa ausência estratégica.
A Havan não se enxerga apenas como uma loja de departamentos; ela opera como um ponto de turismo de compras. A estratégia central da empresa do empresário Luciano Hang é capturar o fluxo rodoviário.
Onde eles preferem construir: Às margens de rodovias de grande movimento, eixos litorâneos ou em polos regionais que concentram o público de várias cidades menores ao redor.
O problema da capital: No tecido urbano denso da cidade do Rio, o trânsito flui de forma pendular e congestionada. Isolar esse público viajante em uma megaloja de rua é uma tarefa logística muito complexa e que foge do DNA da marca.
Para colocar de pé uma filial padrão da Havan, a empresa exige terrenos massivos, que variam entre 10 mil e 20 mil metros quadrados. Essa área precisa ser plana, ter excelente visibilidade de acessos viários e espaço de sobra para um estacionamento monumental gratuito.
Na capital fluminense, encontrar um espaço com essas dimensões geográficas em áreas comerciais consolidadas é como achar uma agulha no palheiro. Onde existem terrenos desse porte (como na Barra da Tijuca ou em áreas da Zona Oeste), o valor do metro quadrado é proibitivo.
O modelo de negócios da Havan prevê um custo imobiliário baixo para garantir o retorno rápido do investimento (ROI). Pagar o preço do solo carioca inviabilizaria a margem de lucro dos produtos.
Mesmo que a empresa decidisse pagar caro por um terreno na capital, haveria um grande obstáculo burocrático: a legislação urbana. O Plano Diretor e o Código de Obras da cidade do Rio de Janeiro possuem regras rígidas sobre o impacto visual, zoneamento e volumetria das construções.
A identidade visual da Havan — que mistura fachadas inspiradas na arquitetura neoclássica da Casa Branca americana com uma Estátua da Liberdade de quase 40 metros de altura — dificilmente conseguiria aprovação rápida e sem ressalvas nos órgãos de urbanismo da prefeitura carioca. A empresa prefere focar em municípios onde a liberação de licenças ambientais e construtivas ocorre de forma mais ágil.
A ausência na capital não significa que a rede desistiu do estado. A estratégia da Havan continua sendo cercar as grandes metrópoles pelas bordas. Os planos de expansão da rede miram cidades de médio porte do interior — como o projeto para Campos dos Goytacazes — e municípios estratégicos que funcionam como eixos de turismo ou polos industriais.
Para o consumidor carioca que deseja visitar a "loja da estátua", a alternativa continua sendo pegar a estrada rumo à Região dos Lagos ou ao Sul Fluminense, já que, no que depender da estratégia financeira da marca, os shopping centers tradicionais da capital continuarão sem a concorrência da gigante dos departamentos.