
A condenação histórica de Meta e Google por danos à saúde mental de uma jovem expõe o abismo ético e social das plataformas digitais.
O que o caso Kaley revela sobre o vício digital, a responsabilidade das big techs e os desafios urgentes para a democracia e a proteção da infância?
Na manhã de 25 de março de 2026, um júri de Los Angeles proferiu uma sentença que trouxe uma enxaqueca enorme pro Vale do Silício. Pela primeira vez, gigantes da tecnologia foram condenadas por criar plataformas deliberadamente viciantes e negligenciar os riscos à saúde mental de adolescentes.
O caso, movido por Kaley, uma jovem de 20 anos que cresceu imersa no Instagram e no YouTube, tornou-se símbolo de uma era em que a economia da atenção colide frontalmente com o bem-estar psíquico de uma geração. O veredito não apenas reconheceu o sofrimento de Kaley — diagnosticada com depressão, ansiedade, dismorfia corporal e pensamentos suicidas desde a infância — mas também expôs documentos internos, depoimentos e uma arquitetura de design digital que, segundo o júri, priorizou o lucro em detrimento da segurança dos usuários mais vulneráveis, o que, entre nós, não é nenhuma novidade.
O impacto foi imediato: Meta e Google, condenadas a pagar US$ 6 milhões em indenizações, viram-se no epicentro de um debate global sobre ética, regulação e o futuro das redes sociais.
Mas o que realmente está em jogo no caso Kaley? Esta coluna propõe uma análise crítica dos bastidores do julgamento, das evidências científicas e das implicações éticas e sociais que transcendem a história individual da jovem. Afinal, quando a atenção se torna moeda e o vício digital um produto, quem protege a saúde mental dos nossos jovens?
Kaley, identificada nos autos como KGM, começou a usar o YouTube aos seis anos e o Instagram aos nove. Seu relato ao tribunal é um retrato pungente da adolescência hiperconectada: uso compulsivo das plataformas, busca incessante
por validação, exposição a filtros que distorcem a autoimagem e episódios de automutilação ainda na pré-adolescência. “Sentia que uma grande parte de mim estava faltando quando ficava longe das redes”, declarou, descrevendo crises de abstinência e pânico ao ter o celular confiscado pela mãe.
Durante cinco semanas, o tribunal ouviu depoimentos de executivos de alto escalão, incluindo Mark Zuckerberg (Meta), Adam Mosseri (Instagram) e Cristos Goodrow (YouTube), além de especialistas em psicologia, psiquiatria e neurociência. Documentos internos, antes confidenciais, vieram à tona: relatórios que reconheciam o vício entre adolescentes, e-mails discutindo estratégias para reter menores de 13 anos e pesquisas que apontavam para o agravamento de quadros depressivos e ansiosos entre jovens usuários.
O júri foi taxativo: Meta e Google foram consideradas responsáveis por 70% e 30% dos danos, respectivamente. O veredito reconheceu que as empresas “criaram ambientes com intenção de viciar e prejudicar a saúde mental da
jovem”, falharam no dever de cuidado e não implementaram medidas suficientes para mitigar riscos.
A decisão é histórica, a partir dela inaugura-se uma nova teoria de responsabilidade civil: não se trata mais apenas do conteúdo publicado por terceiros, mas do design das plataformas como produto potencialmente defeituoso ou perigoso. O caso Kaley é o primeiro de uma série de processospiloto que podem desencadear uma onda de litígios e forçar mudanças estruturais no modelo de negócios das big techs.
A economia da atenção, conceito central para entender o modelo de negócios das plataformas digitais, descreve um ambiente em que o recurso mais disputado é o foco humano. Psicólogos e neurocientistas explicam que
algoritmos avançados e princípios de psicologia comportamental são usados para estimular repetidamente o sistema de recompensa do cérebro, especialmente os circuitos relacionados à dopamina.
Recursos como rolagem infinita, notificações constantes, feedback social imediato e conteúdo personalizado criam um ciclo de reforço intermitente — o mesmo mecanismo das máquinas caça-níqueis — tornando o comportamento de checar redes sociais compulsivo e difícil de abandonar. Cada curtida, comentário ou notificação libera pequenas doses de dopamina, reforçando o hábito e levando à perda de controle sobre o tempo online.
A prevenção do vício digital e dos danos à saúde mental exige uma abordagem multifacetada. Especialistas recomendam que pais e responsáveis monitorem o uso das redes, estabeleçam limites claros e promovam momentos
offline em família. A escola, por sua vez, deve adotar políticas de uso consciente da tecnologia, incentivar atividades presenciais e oferecer suporte psicossocial.
No Brasil, a Lei 15.100/2025 regulamenta o uso de celulares nas escolas, restringindo o acesso a fins pedagógicos e buscando proteger a saúde mental dos estudantes. O Ministério da Educação promove a Estratégia Nacional das Escolas Conectadas, que visa formar cidadãos digitais críticos e conscientes, capazes de usar a tecnologia de forma saudável e produtiva.
Após o veredito, porta-vozes da Meta afirmaram que “a saúde mental dos adolescentes é profundamente complexa e não pode ser atribuída a um único aplicativo”. A empresa sustenta que investe continuamente em ferramentas de
segurança, supervisão parental e campanhas educativas, e que cada caso deve ser analisado individualmente.
O Google, por sua vez, argumenta que o YouTube é uma plataforma de streaming, não uma rede social, e que o processo “não compreende o funcionamento responsável do serviço”. Ambas as empresas anunciaram que
pretendem recorrer da decisão.
Durante o julgamento, as defesas enfatizaram fatores familiares, históricos de abuso e condições psiquiátricas pré-existentes como causas principais dos problemas de Kaley, tentando dissociar o papel das plataformas
no agravamento dos sintomas.
O caso Kaley é apenas o primeiro de uma série de processos-piloto que podem desencadear uma avalanche de ações judiciais contra as big techs. Mais de 2.000 processos semelhantes tramitam nos EUA, movidos por famílias,
distritos escolares e procuradores-gerais estaduais.
A decisão de Los Angeles já impacta o debate regulatório em outros países. Na Austrália, uma lei de 2025 proíbe o acesso de menores de 16 anos a redes sociais, e o órgão regulador investiga plataformas por descumprimento das
regras, com multas que podem chegar a R$ 178 milhões por infração. O Reino Unido e a União Europeia avançam em legislações que exigem transparência algorítmica, proteção de dados e restrições à publicidade direcionada a menores.
No Brasil, a entrada em vigor do ECA Digital (Lei 15.211/2025) marca um novo capítulo na proteção de crianças e adolescentes online. A lei exige verificação de idade, supervisão parental para menores de 16 anos, ferramentas de controle de tempo de uso e relatórios de transparência das plataformas. Empresas que descumprirem podem ser multadas em até 10% do faturamento no país ou ter suas atividades suspensas.
O Supremo Tribunal Federal também redefiniu a responsabilidade das plataformas, permitindo sua responsabilização por conteúdos ilícitos mesmo sem ordem judicial em casos graves, como incitação ao ódio, pornografia infantil e induzimento ao suicídio. O desafio brasileiro é construir uma regulação híbrida, que promova liberdade com responsabilidade.
A economia da atenção transformou o tempo e o foco dos usuários em moeda de altíssimo valor. Plataformas como Meta e Google competem por cada segundo de engajamento, convertendo cliques, curtidas e visualizações em receita publicitária bilionária. O design das redes sociais é orientado para maximizar o tempo de tela, mesmo à custa do bem-estar psíquico dos usuários.
Como sintetizou o CEO da Netflix, Reed Hastings: “Nós competimos com o sono.” O objetivo é simples: manter o usuário conectado pelo maior tempo possível, alimentando algoritmos que aprendem preferências e oferecem conteúdos cada vez mais personalizados e envolventes.
A responsabilidade das plataformas digitais não pode mais ser diluída em discursos de complexidade ou inovação. O dever de cuidado exige transparência, design responsável, proteção ativa dos usuários vulneráveis e compromisso com o bem-estar coletivo. A regulação, por sua vez, deve ser construída de forma democrática, equilibrando liberdade, segurança e direitos fundamentais.
Pais, educadores, profissionais de saúde e formuladores de políticas públicas têm papel crucial na prevenção, na educação digital e no fortalecimento de redes de apoio. Mas é preciso ir além: a sociedade como um todo deve exigir das big techs uma ética à altura do poder que exercem sobre a vida de bilhões de pessoas.
O futuro das redes sociais — e da própria democracia digital — dependerá da coragem de enfrentar o poder das plataformas, da capacidade de legislar com responsabilidade e da disposição de colocar a saúde mental e o bemestar das novas gerações acima dos interesses do mercado.
O caso Kaley é um alerta: a era da impunidade acabou. Resta saber se teremos, como sociedade, a lucidez e a coragem de transformar esse alerta em ação, espero, profundamente, que sim.
Nota da Colunista Mariana Monteiro:
Se você, leitor, sente que o uso das redes sociais está afetando sua saúde mental ou a de alguém próximo, procure apoio profissional. O cuidado com a mente é um direito e uma necessidade em tempos de hiperconexão.
Mariana Monteiro
Colunista do É do Rio
Advogada sócia do Escritório Costa Monteiro Advogados Associados